Batalha Naval

Publicado em: Grandes Guerras nº 1, I Guerra, 2004


A I Guerra Mundial ainda nem tinha co-meçado e a Europa já vivia um corre-corre. A partir da segunda metade do século 19, os europeus experimentaram um frenesi armamentista marítimo. Entre os protagonistas da querela nos mares estavam Inglaterra e Alemanha. Os dois países disputavam no mano a mano quem produzia navios mais poderosos. Os ingleses encasquetaram com a idéia de manter uma frota capaz de derrotar outras duas grandes potências mundiais ao mesmo tempo. Tal desafio ficou conhecido como “política de duas potências”. Só que com uma rival como a Alemanha no páreo foi ficando cada vez mais difícil garantir tamanha supremacia. Assim, varrer os germânicos do jogo tornou-se essencial para os britânicos. A chamada “questão naval” acabou sendo um dos fatores que desencadearam o conflito.

A obsessão européia por navios tem explicação. A “Longa Depressão”, de 1873 a 1896, fez com que os países industrializados abandonassem o livre-comércio e se voltassem novamente para o controle de colônias. Em 1914, 20% do planeta se encontrava sob domínio das potências da Europa. E, em um mundo de territórios controlados à longa distância, ter uma frota poderosa virou questão fundamental. A Inglaterra tinha também uma razão particular para apostar na marinha. Sendo uma ilha, acreditava estar a salvo de ataques se conseguisse proteger as águas que rodeiam seu território. Isso foi verdade absoluta até 1915, quando as primeiras investidas com dirigíveis mostraram que a ameaça também podia vir do ar.

Novidades aquáticas
Os investimentos na marinha renderam frutos. Até 1850, os navios ainda eram caixotes de madeira, que dependiam do vento para manobrar e cujos canhões levavam sete minutos entre um disparo e outro. A estratégia de combate mais comum consistia em abordar e invadir o navio inimigo, em vez de afundá-lo com canhonaços. Com a tecnologia do vapor, as embarcações tornaram-se fortalezas de metal – maiores e mais ágeis. Os canhões aumentaram de tamanho e, carregados pela culatra, passaram a disparar com maior rapidez. Em 1905, a Inglaterra lançou o encouraçado SS Dreadnought, uma invenção tão revolucionária que os encouraçados anteriores passaram a ser chamados de “pré-Dreadnought”. O Dreadnought era maior, mais veloz e duas vezes mais armado que qualquer navio da época. Em 1914, no entanto, quando a I Guerra começou, o original inglês havia sido superado pelas embarcações que o imitaram, e não entrou em combate.

Além de modernos navios, a corrida armamentista fez surgir em cena também os submarinos. Os U-Boats germânicos não ficavam submersos por mais de três horas. Mas seus torpedos representavam uma grande ameaça. Como o sonar ainda não havia sido inventado, afundar um submarino não era tarefa fácil. A saída foram as minas e cargas submarinas, bombas que explodem a uma determinada profundidade. Dos 200 submarinos que a Alemanha perdeu, 106 foram tragados assim. Outra novidade, ainda meio tosca, foram os porta-aviões. Durante toda a guerra, eram apenas navios que carregavam hidroaviões e os traziam de volta por guindastes. Em 1918, já nos últimos instantes do combate, os ingleses conseguiram lançar o HMS Argus, o primeiro porta-aviões da história, com possibilidade de decolagem e pouso.

Durante toda a guerra, ingleses e alemães se enfrentaram no mar. E se revezaram no posto de nação vencedora – ou perdedora. A Alemanha manteve ataques furtivos de submarinos, afundando isoladamente navios civis e militares. A Grã-Bretanha mostrou sua força logo no início da refrega. Em 28 de agosto de 1914, em um ataque surpresa às forças germânicas que patrulhavam a ilha de Heligoland , a 70 quilômetros da costa noroeste da Alemanha, obteve uma vitória acachapante: os germânicos perderam quatro navios e 1200 homens, enquanto os ingleses saíram ilesos. Em 1º de novembro, a Alemanha deu o troco. Afundou dois velhos cruzadores britânicos próximos à cidade de Coronel, na costa do Chile, levando ao fundo 1600 marujos. Empolgado com a vitória, o almirante Maximiliam Spee, comandante da empreitada, resolveu reabastecer em Valparaíso, passando próximo às Ilhas Malvinas, então sob domínio inglês. Os britânicos enviaram cruzadores modernos para deter Spee e, em menos de sete horas, 2200 alemães foram mortos.

A última batalha
O maior embate marítimo entre germânicos e ingleses ainda estava por vir. Em 31 de maio de 1916, as esquadras comandadas pelos almirantes Franz Von Hipper e David Beatty se encontraram na batalha de Jutlândia, no Mar do Norte. A briga foi feia. Tudo começou quando o almirante alemão Reinhardt von Scheer, comandante da frota de alto-mar germânica, resolveu testar os britânicos. Para tal, enviou uma frota de 40 navios para a Dinamarca, comandada pelo almirante Von Hipper. A Inglaterra enviou no encalço o almirante Beatty. Às 15h45, eles abriram fogo. Beatty tinha mais navios, mas levou a pior. A posição do sol favorecia a artilharia da Alemanha. Três navios ingleses foram vaporizados pela explosão de sua própria munição, incendiada por disparos alemães. O resto da frota germânica, comandada por Scheer, juntou-se a Hipper, complicando ainda mais a situação dos britânicos, que logo também receberiam reforços.

Com a artilharia inglesa calibrada, os alemães fugiram para o norte. O almirante John Jellicoe, comandante britânico, preferiu não segui-los. Imaginou erroneamente que os germânicos planejavam uma emboscada com submarinos. E rumou na direção contrária para bloquear o caminho de volta à Alemanha. As duas frotas se encontraram outra vez – e os alemães bateram em retirada de novo. Às 20h10, deu-se o último encontro da grande batalha, com a frota de Hipper protegendo a fuga do restante dos alemães. No resultado final, os ingleses perderam 14 navios contra 11 dos alemães. Suas baixas também foram maiores: 6550 contra 2550. Ambos os lados, no entanto, cantaram vitória. Os britânicos comemoraram a fuga germânica. E os alemães, os estragos na frota inglesa. A batalha de Jutlândia foi o último combate naval da I Guerra. Os altos custos em vidas e material fizeram os países rivais desistirem de brigar nos oceanos. Após o fim do conflito, a frota alemã foi conduzida à Scapa Flow, na Inglaterra, onde se tornou atração turística. Em 4 de junho de 1919, um almirante alemão inconformado ordenou que seus marinheiros afundassem os próprios navios. Os destroços podem ser vistos até hoje.

 

Desastre no mar

A maior explosão não nuclear de todos os tempos aconteceu na I Guerra Mundial. E ocorreu por puro acidente. Em 6 de dezembro de 1917, um navio francês carregado de explosivos entrava na baía de Halifax, no Canadá, quando colidiu com um cargueiro belga saindo do porto. O navio francês incendiou-se e foi abandonado, rumando desgovernado em direção ao píer. Quando explodiu, todas as janelas da cidade se quebraram, 1600 pessoas morreram na hora e outras ficaram cegas com o clarão. A explosão destruiu tudo num raio de 4,5 quilômetros. Uma onda gigantesca criada pela detonação varreu a costa, inclusive uma aldeia indígena. Cerca de 3 mil toneladas de fragmentos foram sugadas do fundo da baía e disparadas em todas as direções: a âncora do navio foi encontrada a cerca de 4 quilômetros do local da explosão. Um cogumelo de 3 quilômetros foi visto no céu. A cidade foi incendiada e, para completar o desastre, ao final do dia, a baía de Halifax foi atingida pela pior tempestade da década.

 

O Brasil

Patrulha no Atlântico

Em 4 de fevereiro de 1915, a Alemanha alardeou para os quatros cantos do mundo: destruiria qualquer navio que se aproximasse da Inglaterra ou da Irlanda. Era o início da chamada “Batalha do Atlântico”. A idéia era evitar a chegada de suprimentos para os países inimigos. Mas acabou se revelando um desastre diplomático. Nações que nada tinham a ver com a guerra acabaram se juntando aos aliados.

Foi o caso dos Estados Unidos. Após o incidente com o transatlântico Lusitânia, em 1915, a opinião pública americana repudiou os alemães. E, em 6 de abril de 1917, os EUA entraram na guerra com um pretexto perfeito. No mesmo ano, o Brasil também teve sete cargueiros civis afundados. Como indenização, confiscou navios germânicos – e também entrou no conflito. A participação brasileira foi pequena: alguns pilotos de aviões, apoio médico e a promessa de patrulhar o Atlântico Sul. Quando finalmente a marinha do Brasil entrou em ação, em novembro de 1918, a guerra já estava no fim.