Resenhas para Aventuras na História, 2004
Publicado em: Aventuras na História, resenhas de jogos e livros durante o ano de 2004
Filosofia a ferro e fogo
Livro: O Atiçador de Wittgenstein
O que ocorre quando se juntam três dos maiores filósofos – e maiores egos – do século 20, uma audiência embasbacada, uma discussão homérica e uma barra de ferro de atiçar brasa? Partindo desse episódio – que se deu em 1946 na Inglaterra – O Atiçador de Wittgenstein (Difel) apresenta o leitor a Ludwig Wittgenstein, Karl Popper e Betrand Russel, a sua época e às grandes questões que até hoje dão o que falar entre essa gente com mania de fazer perguntas como a que foi tema do malfadado encontro: “Existem problemas filosóficos?” O livro é um colírio para seus neurônios.
O mau Stálin...
Livro: As Revoluções Russas e o Socialismo Soviético
Dando início à série “Revoluções do Século 20”, a editora Unesp lança As Revoluções Russas e o Socialismo Soviético, de Daniel Aarão Reis Filho. O livro apresenta ao leitor as condições precárias do país à época da revolução de 1917 – a Rússia era um país agrário e dividido, regido por uma monarquia retrógrada e autoritária. Em meio à enorme confusão que foi o processo revolucionário, Stálin acaba se destacando mais como um carrasco da industrialização que um defensor da causa comunista. A obra se estende até a queda do comunismo e o confuso período atual da Rússia.
... E o bom Mao
Livro: A Revolução Chinesa
Se o livro As Revoluções Russas e o Socialismo Soviético é bastante incisivo, o mesmo não se pode dizer sobre A Revolução Chinesa, também incluído na nova série da Unesp. O lançamento de Wladimir Pomar é simpático demais a Mao Tsé-tung – o massacre na praça da Paz Celestial, por exemplo, é tratado de forma brevíssima e oficialesca. Apesar disso, o estudo, se lido em conjunto com o outro, dá uma boa idéia do quanto foram diferentes essas duas revoluções.
Dê uma de Rambo...
Jogo: Battlefield Vietnam
Para quem quer saltar de cabeça no calor do combate, eis o jogo ideal. Battlefield Vietnam lança o jogador na pele de um combatente americano ou vietcongue, podendo escolher entre diversas funções da Guerra do Vietnã (1961–1975), como atirador de elite, infantaria comum, médico ou engenheiro militar. É possível interagir com o cenário e assumir o controle em baterias antiaéreas, ninhos de metralhadoras ou veículos, inclusive – e improvável para um soldado comum – helicópteros e aviões, como o F4 Phantom ou, do lado vietnamita, o Mig 21. Isso tudo ao som de muito rock’n’roll: a trilha sonora é composta de clássicos dos anos 60, como Jefferson Airplane e The Doors.
... Ou de piloto da FAB
Jogo: Combat Flight Simulator 3
Dizem que um piloto que entrasse na Força Aérea britânica em 1942 tinha uma chance entre oito de sobreviver. Não espere menos deste jogo. Afinal, a série Flight Simulator se tornou famosa por seu realismo e dificuldade extremos. O pobre repórter aqui demorou três dias de treino árduo para finalmente esborrachar seu avião dentro do aeroporto – antes caía em qualquer lugar. Com mapas reais, o jogo trata de campanhas aéreas verdadeiras para os Aliados ou para o Eixo, mas também deixa um espaço para campanhas fictícias, como “E se os jatos tivessem sido mais usados no final da Segunda Guerra?”. Entre as aeronaves que se pode pilotar está o P47 Thunderbolt – que foi usado pela Força Aérea Brasileira na Itália.
Civilization Conquests: na aurora das civilizações
Jogo: Civilization 3 Conquests
Que tal combater Cartago e os bárbaros na ascensão e queda do Império Romano, enfrentar (ou representar) os mouros nas Cruzadas ou tomar as rédeas de um combate na Era Napoleônica? Para quem quer mergulhar nas batalhas e no cotidiano de tempos passados por meio do video game, esta seção estréia com o grande clássico dos jogos de estratégia baseados em enredos históricos: o Civilization Conquests.
Criada em 1990 pelo consagrado designer de games Sid Meyers, a série permite ao jogador fazer o papel de governante imortal de uma civilização, desde a Idade do Bronze até os dias atuais. Cada povo tem seu líder: os franceses são conduzidos por Joana D’Arc, os ingleses por Elisabeth I e os indianos por Mahatma Gandhi. O jogo é tão complexo que é preciso recorrer constantemente a sua “Civilopédia”, onde, além dos detalhes de como jogar, são dadas informações históricas sobre como surgiram certas unidades militares, grandes construções e povos em questão.
Para fãs de história, o melhor do Civilization é que, sendo game de estratégia, exige que o jogador cuide de relações diplomáticas até alianças militares, sem se esquecer da influência cultural, do comércio e até da felicidade geral do povo – o que se obtém construindo igrejas, monumentos ou até comprando produtos de luxo de outros países. Mas o jogo ainda precisa incluir problemas logísticos mais específicos em batalhas, como a fome e o frio, que já decidiram guerras inteiras. Quem sabe numa próxima versão.
Sangue, óleo e areia
Jogo: Desert Rats vs. Afrika Korps
Entre 1941 e 1943, a pedido da Itália, a Alemanha nazista invadiu os países do norte da África, no Saara. As divisões dos tanques Panzer foram chamadas na operação de “Afrika Korps”. Já os tanques da contra-ofensiva inglesa ganharam o apelido de “Ratos do Deserto”. Essa arenosa briga entre monstros de metal é o tema de Desert Rats vs Afrika Korps, jogo lançado pela Atari neste mês. Em ”DRvsAK”, o que vale mesmo é a boa tática de combate para evitar ataques pelos flancos. Mas nada é de ninguém: mate a tripulação e tome para si as armas do adversário. Pauleira do começo ao fim.
Os deuses devem estar loucos
Jogo: Age of Mythology
Lendo relatos como A Odisséia, parece que o mundo da Antiguidade era povoado por uma miríade de criaturas fantásticas. Em Age of Mythology, essa imagem foi levada a sério: deuses antigos e monstros mitológicos combatem guerreiros reais nessa fantasia histórica, fruto dos mesmos criadores da série Age of Empires. Trate de agradar aos deuses para garantir seu sucesso: são quatro civilizações com seus respectivos mitos: nórdicos, gregos, egípcios e os duas vezes mitológicos atlantes. Um bom jogo para imaginar como se pensava no início dos tempos.
À moda antiga, a história da humanidade
Livro: A História da Humanidade
Lançado em 1921, A História da Humanidade (Martins Fontes), de Hendrik Willem van Loon, tem a imodesta proposta de contar, de forma didática, a trajetória do homem, do começo ao fim. O texto foi ampliado várias vezes – a última, pelo filho do autor, que incluiu a ovelha Dolly e a internet. Mas há seus poréns: voltado para o público juvenil, o texto tem frases como “quando você crescer, entenderá”. E é engraçado observar que algumas partes envelheceram mais que outras: o autor fala de “raças” mais espertas, e esperava que a Primeira Guerra fosse a última da história.
Veja, venha e vença
Jogo: Rome: Total War
Que tal controlar uma guerra em todos os aspectos, com centenas de soldados ao mesmo tempo no campo de batalha, mas sem perder o lado estratégico, com planejamento de longo prazo e jogadas espertas? Como outros títulos da série, o premiado Rome: Total War cumpre a promessa e traz a guerra com um nível de detalhes que nenhum outro jogo de estratégia conseguiu. Avance suas centúrias, administre províncias, evite golpes e deserções, prepare emboscadas para o inimigo, construa monumentos e, sobretudo, fique de olho em seu sobrinho...
Páginas de Sensação
Livro Páginas de Sensação
O período tratado em Páginas de Sensação (Companhia das Letras), que vai do final do Império ao final da República Velha (1870-1924), é lembrado como uma época de enorme conservadorismo, tanto moral (as mulheres nem votavam) quanto artístico (com a ascenção do parnasianismo). No livro, a historiadora Alessandra El Far mostra o outro lado dessa época: no emergente mercado editorial brasileiro, pipocavam títulos pornográficos como A Mulata, de Carlos Dias, ou violentos e melodramáticos, “de sensação”, como Elzira, A Morta Virgem, de Pedro Vianna.