Vida Leopoldina

Publicado em: Guia do Estadão, 10 de novembro de 2006


O bairro da zona Oeste já foi considerado terra de ninguém, com galpões desativados. Se você ainda tem essa idéia, melhor se atualizar

Quando a rede internacional de casas noturnas Pachá, presente em 20 países e com sede em Ibiza , anunciou o local em que iria instalar sua filial de São Paulo, não foi pouca gente que deve ter se perguntado: 'Peraí, mas na Vila Leopoldina?'. Bairro mais distante do Centro Expandido, na confluência dos rios Tietê e Pinheiros, a Leopoldina ainda tem a imagem de 'aqueles galpões perto do Ceasa' para muita gente. E não faz muito tempo, era mesmo pouco mais que isso. Há menos de dez anos, a região abrigava indústrias e moradias operárias, que foram sendo substituídas pelos edifícios de classe média alta que hoje tomam quase toda a paisagem. Luiz Paulo Pompéia, coordenador de estudos da Embraesp, empresa privada que faz pesquisas no ramo imobiliário, explica: 'As indústrias, numa tendência da cidade inteira, foram sendo abandonadas por causa do trânsito e pela falta de condições para se modernizarem no mesmo espaço. Elas migraram para as rodovias. Como é mais fácil comprar um galpão inteiro do que vários terreninhos, foi uma grande oportunidade para as empreiteiras, e aconteceu esse boom imobiliário a partir de 1996, 1997'. Os cálculos de Luiz Paulo mostram que o preço por metro quadrado saltou de cerca de R$ 600 para R$ 2.000 em dez anos.

Com tanta gente nova se mudando para lá, o comércio não deixou passar a oportunidade. Luiz Massella, dono do pizza-bar Ritto, foi provavelmente o primeiro a abrir um negócio voltado aos clientes mais remediados, sete anos atrás. 'Moro na Vila Leopoldina há quarenta anos e já tinha aberto bares em outros bairros. Levei dois anos para ter lucro, mas valeu a pena. Meus clientes são 65% da Vila e uns 35% de fora'. Esses 35% tem seus motivos: a Ritto já é quase tradicional, com um ambiente bastante agradável e a melhor pizza da região. Um atrativo especial é a Vineria da Vila, empório que funcionava na Vila Madalena e foi transferido para um barracão ao lado, onde se pode degustar ou comprar diversos vinhos. Também é um dos poucos locais a contar com uma carta de grappas (aguardente de uvas).

Como a Ritto, mas com um pouco mais de cautela - isto é, nos últimos dois anos - vários outros pontos interessantes foram se instalando no antigo bairro industrial para atender à população recém-chegada. Não muito longe dali, funciona outro pizza-bar chique mas bem mais simples que o anterior, a Brascatta, com um dono especialista em cafés gourmet. Bem ao lado, no final da Rua Passo da Pátria, está o enorme bar Imperatriz, que faz jus ao nome pelo tamanho, pela decoração na linha 'nacional-chique' - incluindo um jardim de inverno - e pelo cardápio que traz arroz carreteiro e biscoito de polvilho. Entre os dois fica a Casa London, padaria e empório chique no estilo Bella Paulista (movimentada padoca da região da Paulista) que, apesar do nome, serve um bolo de chocolate como se fosse brownie - mas o brigadeiro é excepcional, assim como o brunch no fim-de-semana. Mais antiga e conhecida, com quatro filiais pela Zona Oeste, a padaria Letícia foi se adaptando ao público e está em expansão para atender a demanda. Encerrando nosso roteiro de padarias interessantes, num local que alguns diriam já ser parte da Lapa, o Armazém dos Pães, aberto há um ano, faz um curioso 'pão pururuca', um queijo quente com a mussarela por fora do pão e gratinada até esturricar.

Voltando aos balcões, uma opção mais informal aos pizza-bares e ao Imperatriz é o Atol Açaí Bar, com ambiente aberto, telão e decoração praiana - o açaí do nome vem em três tamanhos, servido com frutas diversas. Costuma atrair moradores e funcionários em happy hour. Bem mais intimista é o pequeno MariaLima, bar tranqüilão com mesas na calçada, com um certo jeito de café. O local tem por curiosidade sua 'carta de copos' - o cliente escolhe entre seis opções para tomar a cerveja. Talvez ele fique menos intimista com a ampliação prevista para o final do ano.

No quesito restaurantes, o bairro tem e ganhou opções razoáveis. A mais antiga é a churrascaria Ponteio Grill, que funciona há 17 anos no final da Avenida Imperatriz Leopoldina. A Ponteio surgiu para servir aos executivos das indústrias, e mantém suas opções de churrasco meio que no estilo dos anos 80, sem as novidades pós-abertura econômica que hoje estão disponíveis em suas concorrentes. Já o preço está atualizado, na casa dos R$ 50. Se isso não agrada, para uma opção mais moderninha há o Villa Dianna, com decoração 'designer' que inclui um jardim interno com uma mini-cascata. O Villa é um restaurante que tenta fazer cozinha contemporânea, misturando ingredientes exóticos ao trivial e com técnicas francesas, mas o resultado ainda é um tanto irregular. Como nenhum circuito gastronômico em São Paulo ficaria completo sem um restaurante japonês, na Leopoldina há o Kozaka, aberto ainda em 1988 para atender à colônia nipônica que trabalhava no Ceasa e na Cooperativa de Cotia. Trata-se de um restaurante tradicional e sem sustos, onde a proprietária, Regina Kozaka, prepara teishokus e serve um rodízio confiável.

Terminando, voltando ao assunto do Pacha, ela não é a primeira balada a se fixar no bairro. O Diquinta chegou antes, em julho de 2004. O som é o samba-rock e a black music, com um públcio bem normal, semelhante ao do Grazie a Dio!, na Vila Madalena. A casa tem uma peculiaridade interessante , que é de ter surgido no Itaim Bibi e depois decidido migrar para a Vila Leopoldina. Será um dia o Diquinta considerado o pioneiro de um novo bairro boêmio?