Você já foi à Mooca, ô meu?
Publicado em: Guia do Estadão, 11 de agosto de 2006
Dizia a camiseta de um motoqueiro com quem topamos nesta reportagem: “100% Mooca”. Não se sabe se a moda já se espalhou para outros bairros, mas, onde quer que fosse que não lá, pareceria menos sincero. A Mooca é um microcosmo, dos poucos locais onde ainda se pode constatar vestígio concreto da lendária metrópole italianada retratada pelo escritor Juó Bananére e o sambista Adoniran Barbosa - sim, foi ali que ele teria composto o Samba do Arnesto. A um bairro assim tão folclórico, não poderiam faltar mitos. O maior deles é que a Mooca seria um bairro isolado, pouco acessível a quem mora em outras regiões: segundo o subprefeito Eduardo Odluaki, não foi a Mooca que ficou longe, foi o Centro que mudou de lugar, subindo para a Avenida Paulista. O bairro continua logo ali, a cinco minutinhos da Praça da Sé, pela Avenida do Estado ou pela Radial Leste. Há também o mito do sotaque mooquense, o que, para o lingüista Bruno Dalari, seria apenas o paulistanês da classe média de hoje: “A diferença vem da época em que os operários italianos da Mooca, e também do Brás, do Bexiga, falavam um português errado e eram vistos como brutos ignorantes. A partir dos anos 1960, os filhos deles passaram a falar um sotaque híbrido que se espalhou pela cidade toda, já que ascenderam socialmente. A diferença é clara comparando o jeito que falam Eduardo Suplicy e o filho Supla, o primeiro sem e o segundo com a influência italiana”.
Se a Mooca ensinou a cidade a falar, não é difícil ver que também ensinou a comer. Muita gente de fora concorda que a confeitaria Di Cunto é a melhor da cidade (um mooquense provavelmente diria ser a melhor ‘do mundo’). Outra das ‘indiscutíveis melhores’ é a Esfiha Juventus - parte do programa, aliás, de assistir a um jogo do time que existe pelo bairro (veja adiante). A Pizzaria São Pedro, também nas imediações, está lá desde 1966 e é uma das pioneiras na inovação paulistana em matéria de pizza: a massa fina, diferente da italiana, que é quase um pãozinho. Caso você queira algo mais para iniciados, livre de turistas, vale dar uma passadinha na simplíssima Pasticceria di Camargo, freqüentada apenas por moradores da região - talvez você não se interesse por pratos italianos (honestos) aquecidos no microondas, mas a cara torta de amêndoas vale cada um dos oito reais investidos.
A vida noturna tradicional - e boemia não é balada, é bar, onde o som não destrói a filosófica conversa de botequim - com o Bar Mooca, o Giba’s e o Elídio, tem um reforço curioso dos Churros da Mooca, que, mantidos pelo espanhol Antonio Garcia Lopes há 49 anos, são vendidos a partir das duas da manhã. Churro ali não tem recheio - o dono purista só aceita açúcar e canela, e olhe lá.
Vamos, enfim, às comemorações, que se estendem até dia 25. Elas serão concentradas no Centro Esportivo e Educacional da Mooca, parque da prefeitura, com bibliotecas, quadras e piscinas - que agora também ganhará espaço de exposições. Na 2ª feira, 14, será aberto o II SSUPREMO - Salão de Arte da Subprefeitura Mooca - e o Jardim das Esculturas, com obras contemporâneas. Na ocasião, show das bandas Chorando Pelos Cotovelos (18h) e Quasímodo (20h). No dia seguinte, às 19h30, acontece o prêmio ‘Declare Seu Amor à Mooca’, no Teatro Arthur Azevedo. Na 5ª (17), o ato cívico, na avenida Paes de Barros com Rua da Mooca, a missa de ação de graças (19h) e sessão solene (20h), na Igreja do Bom Conselho (R. da Mooca, 3.911). Na 6ª, às 19h, no Teatro Arthur Azevedo, a Jornada da Moda, desfile artístico-cultural lembrando o próprio teatro. No mesmo dia, das 9 às 19h, o Encontro Cultural dos 450 anos, na Rua Dom Bosco. No Clube Atlético Juventus, a festa do Empresário do Ano (5ª, dia 24, 20h30) e, na 6ª (25), às 20h, Noite Italiana com o cantor Luciano Bruno, por R$ 50.