Sua semana, sua TPM

Publicado em: Guia do Estadão, 2 de março de 2007


Em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, preparamos um roteiro especial para enfrentar - e superar - ‘aqueles dias’

Para começo de conversa, vamos admitir um fato: o autor da primeira parte desta reportagem, esta mesma que você lê agora, é um homem. Portanto, qualquer falha aqui deve ser creditada a este dado incontornável da vida (culpar o homem é o que as mulheres fazem normalmente, não?). Cara leitora, posso não ser nenhum Chico Buarque, mas vou relembrá-la que o homem é a segunda maior vítima da TPM. A idéia original seria buscar atrações no melhor estilo ‘um dia de fúria’ (veja só como somos, os homens). Mas, então, fui alertado por elas que a TPM vai muito além da raiva. O que mais incomoda as mulheres são mudanças bruscas de emoções e o choro fácil.

Assim instruído, eis a tentativa de abordar as diversas facetas do fenômeno. Mas, com a licença da insensibilidade tipicamente masculina, faço a ressalva: para mim, é raiva mesmo. Você não pode subir ao ringue (quer dizer, oficialmente, não) mas pode libertar certa adrenalina por empatia no bar La Gara, onde mulheres lutam boxe todas as noites. Se pancadaria para você, só mesmo a sonora, vá ao CB você ouvir punk de mulher toda sexta-feira, nos sets da DJ Lu Riot. Ela é especializada, como o apelido sugere, em ‘Riot Grrrls’, estilo de punk rock praticada por bandas exclusivamente de moças, mas com um som nada ‘de moça’ (desculpe o machismo, às vezes escapa). Outra DJ notável é a carioca Kammy, que deve tocar tecno bem pesado hoje, lá pelas 4h30 no Clash Club. Ainda falando de irritação, ao vivo temos a banda de ska-punk-eletro de garotas Sweet Cherry Fury, quinta, na Fun House. E, numa súbita (e, ahá, imprevista) mudança para o sentimental, quase meloso, Cris Amoretti, que apresenta amanhã canções de Annie Lennox, Alanis Morissette e Tori Amos, no CCSP. Mais uma chave invertida hormonal, pulamos, no dia seguinte, para o pop da banda Vega e sua vocalista treinada em canto lírico. E, muda tudo outra vez, o glamour à antiga de Misty, quinta, no All of Jazz, e suas interpretações das divas Billie Holiday e Ella Fitzgerald.

Hora de feminismo, companheira! Programas que os homens dizem ser de homem. Na Universidade da Cachaça, num ambiente arrumadinho, são 400 rótulos, das adocicadas às bem ardidas. Pode potencializar a dor-de-cabeça (ou, ao menos, virar uma boa desculpa para mais tarde). Arremate com um charuto, ao estilo Madonna na fase ‘Erotica’. O local é a Tabacaria Lenat, aliás, bastante freqüentada por mulheres, ou a Tabacaria Roma, com um café aconchegante, onde pode até sair uma paquera se você gosta de engravatados. Quer ainda provar o que o feminismo rendeu de melhor? Então faça uma visita ao Museu do Automóvel, onde as monitorAs (com ‘A’ maiúsculo) entendem tudo dos possantes de outrora. Trocando tudo de novo, agora para a timidez excessiva. Siga para a exposição Picture Show. O artista plástico Julião Sarmento fez colagens que remetem às divas de Hollywood como Greta Garbo, Audrey Hepburn, Grace Kelly e Elizabeth Taylor.

Em caso de súbita crise de baixa auto-estima provocada pela visão das divas, esqueça tudo e vá à mostra Decifrando o Cabelo, exposição interativa e científica que explica tudo, mas tudo mesmo, sobre esta importantíssima parte do corpo humano que os homens, esses primitivos, são capazes de tratar à base de sabão de coco. Com tal conhecimento, nunca mais você será enganada por aquele xampu mágico. E termine este momento de silêncio misterioso (ao menos para nós, os homens) na mostra Mulheres Artistas: Olhares Contemporâneos, com Tomie Ohtake, Beth Moysés, Rosana Paulino, Karin Lambrecht e Élida Tessler. Hora de escuridão, para quem estiver com fotofobia (ou enxaqueca). No cinema, você pode ir de O Diabo Veste Prada, pura malvadeza de um jeito que só as mulheres podem entender (sério, eu não entendi). Dreamgirls mostra glória, fracasso e traições em uma história inspirada no grupo feminino de soul music Supremes - para chorar de ódio quando a feia-mas-talentosa é passada para trás pela bonita-mas-nem-tudo-isso. A quase versão brasileira sobre o tema é Antônia, baseada na série de TV, sem muita malícia, mas com mais realismo. E o clássico Uma Mulher Sob Influência, sobre uma dona de casa que parece viver em estado de TPM constante, enlouquecida pelo tédio e pela culpa. Ainda no escuro, teatro. Amigas Pero no Mucho trata de quatro “amigas” - no sentido feminino do termo - que discutem seus problemas de forma bastante desinibida. Quase me esqueço: as amigas são interpretadas por homens. As Olívias Palitam é uma comédia que trata da vida das mulheres com mais de 30 anos que falam até de futebol.

É isso. Espero que este roteiro tenha ajudado. Não? Ai, ai, quando isso vai passar?